O dB é provavelmente o conceito mais útil e ao mesmo tempo mais mal compreendido em áudio. Aparece em ganho, em nível de sinal, em medidores, em EQ, em compressor, em especificação de equipamento. Entender bem o dB economiza horas de confusão depois.
O que é (e o que não é)
A primeira coisa a fixar — e é o que mais confunde — é que dB não é uma unidade absoluta. Não existe "10 dB" no mesmo sentido em que existem "10 metros" ou "10 volts". dB é sempre uma razão entre duas grandezas, expressa em escala logarítmica.
Quando alguém diz "esse sinal tem 10 dB", está implicitamente comparando com alguma referência — explícita ou subentendida. Sem referência, dB é vazio.
Parece detalhe técnico, mas é o conceito que destrava todo o resto.
Por que logarítmico
Duas razões.
Primeira: a percepção humana é logarítmica. Já vimos isso em frequência — dobrar a frequência sobe uma oitava, e oitavas são percebidas como passos iguais. O mesmo vale para amplitude: o ouvido percebe diferenças proporcionalmente, não em valor absoluto. Multiplicar a potência por 2 soa parecido em qualquer ponto da escala, seja vindo de 1 W ou de 100 W.
Segunda: a faixa dinâmica do som é enorme. Entre o sussurro quase inaudível e o avião decolando há uma razão de cerca de 1.000.000.000.000 (um trilhão) em pressão. Trabalhar com esses números em escala linear é impraticável. Em dB, essa razão vira algo gerenciável (~120 dB).
Escala logarítmica resolve os dois problemas: aproxima a percepção e comprime números absurdos em intervalos manejáveis.
A matemática essencial
Existem duas fórmulas, e a escolha entre elas depende do tipo de grandeza.
Para grandezas de potência (watts, energia):
Para grandezas de amplitude (tensão, corrente, pressão):
Por que 10 num caso e 20 no outro? Porque potência é proporcional ao quadrado da amplitude (). O 20 aparece porque, ao tirar o log de algo elevado ao quadrado, o expoente vira multiplicador: . Resultado: as duas fórmulas, apesar de coeficientes diferentes, dão o mesmo número de dB para a mesma situação física. Não é coincidência — é desenhado para ser assim.
Os números mágicos
Na prática, raramente alguém puxa a calculadora para contar dB. Em vez disso, decora-se um punhado de razões e o resto sai de cabeça por combinação:
| Variação em dB | Na potência | Na amplitude |
|---|---|---|
| +3 dB | ≈ dobra | ≈ ×1,41 |
| +6 dB | ≈ ×4 | ≈ dobra |
| +10 dB | ×10 | ≈ ×3,16 |
| +20 dB | ×100 | ×10 |
| −3 dB | ≈ metade | ≈ ×0,71 |
| −10 dB | ÷10 | ≈ ×0,32 |
Dois desses merecem destaque:
- +10 dB é a regra de bolso para "soa duas vezes mais alto". É uma aproximação grosseira da percepção subjetiva — útil para ter referência mental, mas não exata.
- −3 dB é o ponto de meia potência. É o critério padrão para definir a frequência de corte de um filtro — vai aparecer no artigo de EQ.
Uma vantagem operacional do dB: como é logaritmo, multiplicar vira somar. Dobrar a potência e dobrar de novo é +3 dB + 3 dB = +6 dB. Encadear ganhos de pré, equalizador e amplificador é só somar os dBs de cada etapa.
"dB de quê?" — os dBs com sufixo
Como dB sozinho não tem significado absoluto, padronizaram-se algumas referências. Quando se fixa uma referência, dB ganha um sufixo — e aí sim vira um valor absoluto.
Os mais comuns no áudio:
| Sufixo | Referência (0 dB) | Onde aparece |
|---|---|---|
| dBu | 0,775 V RMS | Áudio profissional analógico (nível de linha +4 dBu) |
| dBV | 1 V RMS | Equipamento consumer (nível de linha −10 dBV) |
| dBFS | Full scale digital | Áudio digital — sempre ≤ 0 dBFS, pois 0 é o teto absoluto |
| dB SPL | 20 µPa | Pressão sonora — assunto do próximo artigo |
Notas rápidas:
- dBu e dBV referenciam tensão. Conectar um equipamento de nível −10 dBV a uma entrada esperando +4 dBu (ou vice-versa) é causa clássica de "ruído alto" ou "sinal fraco" — a diferença entre os dois níveis padrão é de cerca de 11,8 dB.
- dBFS é a régua do mundo digital. Como 0 dBFS é o máximo absoluto (acima disso há clipping), todo sinal digital vive em valores negativos. Um pico de −6 dBFS está 6 dB abaixo do teto.
- Outros sufixos existem (dBm, dBA, dBC, LUFS, dB SWL), mas pertencem a contextos específicos — broadcast, ruído ocupacional, telecomunicações. Não são essenciais aqui.
dB no dia a dia do áudio
Onde o leitor vai esbarrar com dB:
- Faders de mixer — quase sempre graduados em dB, tipicamente de −∞ a +10. O "0" no fader não é silêncio: é ganho unitário, o sinal sai como entrou. Acima de 0 há amplificação; abaixo, atenuação.
- Medidores — VU, peak, RMS, LUFS, todos em dB. A escala de cada um tem uma referência diferente, e por isso valores não são intercambiáveis entre tipos de medidor.
- Ganho de pré-amplificador — o botão "gain" do mixer ou da interface é medido em dB, geralmente de 0 a +60.
- EQ — o eixo vertical de qualquer curva de equalização é dB. Um boost de +3 dB em 1 kHz significa razão de potência de ≈ 2× naquela frequência.
- Compressor — threshold, knee, makeup gain e a redução de ganho mostrada no medidor: tudo em dB.
Não é exagero dizer que, uma vez assimilado, dB é a língua franca da operação de áudio. Quase nenhum parâmetro de equipamento profissional escapa.
dB é um conceito de razão, não de quantidade. Sempre que algo for medido em dB, vale conferir mentalmente: razão em relação a quê? Em metade dos casos a referência está clara — pelo sufixo, pelo contexto, pelo medidor. Na outra metade, esse hábito evita erro. O próximo artigo aplica o dB à grandeza mais óbvia — pressão sonora — e abre o conceito de SPL.