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Áudio / Acústica

Frequência

Antes de equalização, timbre, microfones ou caixas: frequência é a propriedade mais fundamental de qualquer onda sonora. O que é, como percebemos e por que toda discussão técnica volta aqui.

Alfredo Neto3 min de leitura
Sumário (7)

Frequência é o ponto de partida de qualquer conversa técnica sobre áudio. Antes de falar em equalização, timbre, microfones ou caixas, é preciso entender o que é uma onda sonora — e frequência é a propriedade mais fundamental dessa onda.

O que é frequência

Som é uma onda mecânica: uma perturbação de pressão que se propaga por um meio (ar, água, parede) fazendo as moléculas oscilarem para frente e para trás. Cada oscilação completa — comprimir, descomprimir, voltar ao repouso — é um ciclo.

Frequência é simplesmente o número de ciclos por segundo. A unidade é o Hertz (Hz):

  • 1 Hz = 1 ciclo por segundo
  • 1.000 Hz = 1 kHz = mil ciclos por segundo

Um som de 100 Hz faz o ar oscilar 100 vezes por segundo. Um de 10 kHz, 10.000 vezes.

Frequência e percepção de altura

Frequência é uma grandeza física, mas o ouvido humano traduz frequência em altura (pitch) — a sensação de "agudo" ou "grave":

  • Frequência baixa → som grave (bumbo, baixo, trovão)
  • Frequência alta → som agudo (prato, assobio, "s" da fala)

Vale fixar logo: altura não tem relação com volume. Um som de 50 Hz pode ser ensurdecedor ou inaudível — frequência define só o quão grave ele é, não o quão forte. Volume é assunto de SPL e dB.

Espectro audível

O ouvido humano saudável capta frequências entre 20 Hz e 20.000 Hz (20 kHz). Fora dessa faixa:

  • Abaixo de 20 Hz: infrassom. Não escutamos, mas em níveis altos podemos sentir — vibração no peito, desconforto físico.
  • Acima de 20 kHz: ultrassom. Cães, morcegos, equipamentos médicos.

Na prática, o limite superior cai com a idade. Aos 40 anos é comum não passar dos 15–16 kHz; aos 60, dos 12 kHz. Isso é parte do motivo pelo qual mixagens soam diferente para pessoas diferentes — não é só gosto.

Divisão em faixas

Para fins práticos — EQ, descrição de timbre, leitura de especificação de equipamento — o espectro audível costuma ser dividido em faixas nomeadas. Os limites variam de autor para autor, mas uma divisão funcional é:

FaixaRange aproximadoO que vive ali
Sub-grave20 – 60 HzPeso do bumbo, baixo profundo, rumble
Grave60 – 250 HzCorpo do bumbo, baixo, fundamental de vozes masculinas
Médio-grave250 – 500 HzCalor de instrumentos, "encorpamento", boxiness excessivo
Médio500 Hz – 2 kHzNúcleo da voz humana, presença da maioria dos instrumentos
Médio-agudo2 – 4 kHzInteligibilidade da fala, ataque, presença
Agudo4 – 8 kHzBrilho, definição de pratos, sibilância
Brilho / ar8 – 20 kHzSensação de espaço, "ar", harmônicos altos

Essa divisão vai aparecer em quase todo artigo seguinte. Não é uma divisão científica rígida — é vocabulário comum entre engenheiros de áudio.

Frequência fundamental e harmônicos

Aqui cabe uma ressalva importante: na natureza, quase nenhum som é uma frequência pura. Quando um violão toca a nota Lá (440 Hz), ele não emite só 440 Hz — emite 440 Hz como frequência fundamental e uma série de harmônicos (múltiplos inteiros da fundamental: 880, 1.320, 1.760, 2.200 Hz…) em intensidades variadas.

A fundamental define a nota que percebemos. Os harmônicos definem o timbre — o que faz um violão soar diferente de um piano tocando a mesma nota. Esse assunto pertence ao artigo de timbre; por ora, basta saber que "uma nota" no mundo real é sempre um conjunto de frequências, não uma só.

Oitava

Dobrar a frequência equivale a subir uma oitava — uma das relações mais importantes da percepção auditiva.

  • 110 Hz → 220 Hz → 440 Hz → 880 Hz → 1.760 Hz

Todas essas frequências são percebidas como a "mesma nota" (Lá), em alturas diferentes. Isso revela algo crucial: a percepção humana de frequência é logarítmica, não linear. A diferença entre 100 e 200 Hz soa igual à diferença entre 1.000 e 2.000 Hz — apesar de a primeira ser de 100 Hz e a segunda de 1.000 Hz.

Essa lógica logarítmica é o motivo de o espectro audível "caber" em cerca de 10 oitavas, e de faixas como "grave" cobrirem bem menos Hz que faixas como "agudo". É também a razão de existir o decibel — assunto do próximo artigo.

Comprimento de onda

Som tem velocidade. No ar, a cerca de 20 °C, ele se propaga a aproximadamente 343 m/s. A relação entre frequência (f), velocidade (v) e comprimento de onda (λ, lambda) é direta:

λ=vf\lambda = \frac{v}{f}

Aplicando:

FrequênciaComprimento de onda
20 Hz≈ 17 m
100 Hz≈ 3,4 m
1 kHz≈ 34 cm
10 kHz≈ 3,4 cm
20 kHz≈ 1,7 cm

Esses números explicam muita coisa que aparece nos próximos artigos:

  • Graves "atravessam" paredes porque suas ondas são maiores que a espessura da parede — não interagem com ela do mesmo modo que ondas curtas.
  • Sub-graves são difíceis de localizar porque o comprimento de onda é maior que a distância entre os ouvidos; o cérebro perde as pistas de fase e tempo que usa para localizar a fonte.
  • Posicionamento de microfone é crítico em agudos: mover o mic 3 cm equivale a quase um comprimento de onda inteiro em 10 kHz, mudando bastante a captação. No grave, 3 cm não fazem quase diferença.
  • Tratamento acústico exige mais material (e maior) para domar graves do que agudos.

Frequência é a base. A partir daqui, todos os outros conceitos — dB, SPL, timbre, fase, EQ — ganham apoio no que foi definido aqui. Vale voltar a este artigo sempre que algum dos próximos parecer abstrato: quase sempre o problema é uma intuição de frequência que ainda não foi fixada.